Vícios a dois
Depois de dois anos, ela voltou a encontrá-lo. Ela olhou e nada sentiu. Nada. Como se não o conhecesse, como se nunca o tivesse visto. E ele, faminto pelas saudades, pediu, quase implorou um beijo. Apenas um beijo. Um beijo por tudo o que viveram, um mero beijo, nada demais. Esse foi seu erro. Concordar com ele. Conceder o tal beijo, sob o pretexto de paz. Mas vícios são eternos. Vícios são vícios porque são bons. Ou pelo menos, bons no início. E ela, que largara o cigarro fazia dez anos, sentiu naquele beijo algo como se tivesse caído na tentação da primeira tragada. A melhor de todas, sempre. E tal como dependente que larga o vício só para voltar a ter aquela sensação de início novamente, ela esqueceu tudo de ruim, tudo de amargo, tudo que o vício havia nela causado e o beijou longamente, loucamente até o dia seguinte. Até se dar conta do que fizera, com aquele arrependimento dos devassos depois que o efeito da maravilha acaba. O que tinha, afinal, de tão viciante naqueles lábios? Naquela barba imperfeita, naquela língua perturbadora? O que tinha? O que tinha ele que insistia em roubar sua paz, arduamente conquistada? E imediatamente sentiu vontade de acender um cigarro. E dar uma longa e única tragada. Única. Como uma recompensa pelos dez anos. Não, não. Não podia. Ai, que vontade. Não, recair não. Sabia que a paz só seria construída sem vícios, com sentimentos possíveis, controlados, inteligentes. Ah, também sem exageros. O beijo foi bom e tal, mas um beijo é só um beijo, só beijos, só saliva, só... saudades, ah, que saudades desse vício. Que coisa é essa que nos leva a caminhos que não queremos? Ela que estudara por meses os males do cigarro estava prestes a uma tragada, à melhor delas. É ela que vicia. Sabia. Lembrava quando fumou pela primeira vez, na escola ainda. Foi aquela coisa bem de turma mesmo. Via todo mundo fumando e desdenhava. Um dia uma amiga deixou um maço na sua casa. E ela fumou na frente do espelho. Não foi a sensação da tragada que a encantou. Mas sim o jeito provocante que achou que o cigarro lhe dava. Sim, fumar era muito sensual. E a primeira tragada só aconteceu alguns maços depois. Foi quase sem querer. Ela fingia que fumava e não fumava. Daquela vez, estava conversando, sentindo-se ótima e deu uma tragada. Uau, o que era aquilo! E essa sensação só voltou a sentir uma única vez. Quando o beijou. Um beijo improvável, difícil, demorado, oculto, óbvio. Um beijo que lhe tirou a paz pelo resto daquela noite e das demais. Ficava um tempo sem vê-lo e quando estava quase achando normal a vida sem aquela boca, lá vinha ela – a boca dele - a refrescar a memória da sua pele. A injetar nova dose de nicotina nos seus pulmões quase limpos. E seu sistema respiratório enchia-se de uma fumaça alegre e inevitável. Dessa vez, porém, achava que estava livre. Achava que jamais o beijaria novamente, pois suas vidas assim exigiam. Ela em paz. Ele em equilíbrio. Então, ele a procura. E ela não resiste. Que paz, que equilíbrio? Agora ela sabia que o equilíbrio dele dependia dela. E que sua paz só seria conquistada ao lado dele. Afinal, todos temos vícios.
Depois de dois anos, ela voltou a encontrá-lo. Ela olhou e nada sentiu. Nada. Como se não o conhecesse, como se nunca o tivesse visto. E ele, faminto pelas saudades, pediu, quase implorou um beijo. Apenas um beijo. Um beijo por tudo o que viveram, um mero beijo, nada demais. Esse foi seu erro. Concordar com ele. Conceder o tal beijo, sob o pretexto de paz. Mas vícios são eternos. Vícios são vícios porque são bons. Ou pelo menos, bons no início. E ela, que largara o cigarro fazia dez anos, sentiu naquele beijo algo como se tivesse caído na tentação da primeira tragada. A melhor de todas, sempre. E tal como dependente que larga o vício só para voltar a ter aquela sensação de início novamente, ela esqueceu tudo de ruim, tudo de amargo, tudo que o vício havia nela causado e o beijou longamente, loucamente até o dia seguinte. Até se dar conta do que fizera, com aquele arrependimento dos devassos depois que o efeito da maravilha acaba. O que tinha, afinal, de tão viciante naqueles lábios? Naquela barba imperfeita, naquela língua perturbadora? O que tinha? O que tinha ele que insistia em roubar sua paz, arduamente conquistada? E imediatamente sentiu vontade de acender um cigarro. E dar uma longa e única tragada. Única. Como uma recompensa pelos dez anos. Não, não. Não podia. Ai, que vontade. Não, recair não. Sabia que a paz só seria construída sem vícios, com sentimentos possíveis, controlados, inteligentes. Ah, também sem exageros. O beijo foi bom e tal, mas um beijo é só um beijo, só beijos, só saliva, só... saudades, ah, que saudades desse vício. Que coisa é essa que nos leva a caminhos que não queremos? Ela que estudara por meses os males do cigarro estava prestes a uma tragada, à melhor delas. É ela que vicia. Sabia. Lembrava quando fumou pela primeira vez, na escola ainda. Foi aquela coisa bem de turma mesmo. Via todo mundo fumando e desdenhava. Um dia uma amiga deixou um maço na sua casa. E ela fumou na frente do espelho. Não foi a sensação da tragada que a encantou. Mas sim o jeito provocante que achou que o cigarro lhe dava. Sim, fumar era muito sensual. E a primeira tragada só aconteceu alguns maços depois. Foi quase sem querer. Ela fingia que fumava e não fumava. Daquela vez, estava conversando, sentindo-se ótima e deu uma tragada. Uau, o que era aquilo! E essa sensação só voltou a sentir uma única vez. Quando o beijou. Um beijo improvável, difícil, demorado, oculto, óbvio. Um beijo que lhe tirou a paz pelo resto daquela noite e das demais. Ficava um tempo sem vê-lo e quando estava quase achando normal a vida sem aquela boca, lá vinha ela – a boca dele - a refrescar a memória da sua pele. A injetar nova dose de nicotina nos seus pulmões quase limpos. E seu sistema respiratório enchia-se de uma fumaça alegre e inevitável. Dessa vez, porém, achava que estava livre. Achava que jamais o beijaria novamente, pois suas vidas assim exigiam. Ela em paz. Ele em equilíbrio. Então, ele a procura. E ela não resiste. Que paz, que equilíbrio? Agora ela sabia que o equilíbrio dele dependia dela. E que sua paz só seria conquistada ao lado dele. Afinal, todos temos vícios.